12 de maio de 2020

Primeiro Papel Feito em Casa

Era 1992, muitas mudanças aconteceram. Em agosto, fui morar com meu namorado, meu eterno namorado Walter Miranda. Estavam novas a vida e a casa. Tudo fervilhava.

No ano anterior, já tinha largado o emprego e durante 6 meses me dediquei a estudar arte. Fiz novos cursos: gravura no Lasar Segall, pintura e gravura na Oficina Cultural Mazzaropi, continuava com modelo vivo na Pinacoteca e comecei em agosto o curso de Papel Artesanal (também aquarela e tapeçaria) no Liceu de Artes e Ofícios. Minha intenção inicial era conhecer como era feito o papel, já que minha expressão artística sempre usou o suporte do papel: desenho, aquarela, gravura.

Todos os cursos livres do Centro Cultural do Liceu de Artes Ofícios eram profundos. O curso de papel de artesanal com a professora chilena Stella Rodas era de um ano. No primeiro mês de aula, mostrei os papéis que fizera para minha irmã. Ela adorou e, como se casaria no final daquele ano, me pediu para fazer os convites do seu casamento.

Assim, subitamente virei papeleira e já comecei atrasada. Era agosto e os convites tinham que ser distribuídos até novembro. Seriam 150 convites, tinha que fazer 200 papéis, uns  a mais caso algo desse errado. Depois de totalmente secos iriam para impressão em uma gráfica.

Foi absurdamente artesanal, pois não tinha infraestrutura alguma. A planta escolhida foi Costela-de-Adão, que peguei do sítio dos meus pais. Os únicos matérias comprados foram os produtos químicos e os 2 bastidores, que ainda a tela e impermeabilizamos. Walter me ajudou muito nesses afazeres.
costela de adão
Para cozinhar a poupa precisava que a panela fosse grande e que não estragasse pelo uso dos produtos químicos. Usei uma lata velha de óleo comestível de 18 litros. Depois bati a poupa num pilão, que compramos correndo no Embu das Artes. O liquidificador é o mesmo que uso até hoje em casa, porém com um copo próprio só para bater as fibras do papel artesanal. Tinha que bater pouquíssima quantidade para não esquentar o liquidificador.

Eu não tinha o tanque de plástico para fazer as folhas, usei o tanque de roupas. Sempre com cuidado para que a poupa não entrasse no encanamento e entupisse tudo. As folhas molhadas eram deixadas descansar em tecidos de algodão que minha mãe fez as pressas as bainhas (eram uns 80 tecidos). A prensa para "enxugar as folhas" eram baldes cheios d'água. Pus para secar no varal de roupas e cuidava para que não entortassem. Tirava do varal diariamente, prensava de novo e voltava para o varal. Como só tinha 80 tecidos, tinha que esperar secar o primeiro lote, para fazer mais 80 papéis. Por ser inverno e os papéis custavam a secar. Cada lote de 80 demorava quase duas semana secando.

Nesse meio tempo, com a ajuda do Walter, conseguimos uma gráfica que trabalhava com tipografia para impressão do convite. O papel artesanal não é preparado para impressoras modernas, que podem "sujar" as lente e os espelhos com microfibras, e muito menos ainda para impressão a quente.

Meu pai também participou do convite do casamento da filhota e propôs fazer  alianças de latão para "lacrar" o convite como um pergaminho enrolado. Assim na sua fábrica, Metalúrgica Garra, ele produziu mais de 300 alianças de latão com tubo de 1 polegada e paredes grossas que foram arredondas nas bordas artesanalmente. Cada convite recebeu 2 alianças, para que o convidado já recebesse de lembrança do casamento. Esse par poderia ser usado como argolas para guardanapos de pano depois.
Anéis de latão, lacre do convite
anéis de latão, lacre do convite
Os convites ficaram lindos. Combinou com todo casamento que minha irmã sozinha organizou. Ela era uma molequinha de apenas 23 anos. Ela contratou o salão, as flores, as mesas, as cadeiras, o buffet com garçons. (Minha mãe ajudou na compra das bebidas.) Contratou o nosso professor de música da escola para tocar e cantar. Contratou para cartório fazer o casamento civil no local. Convidou família e parentes espalhados pelo Brasil todo. Os locais, o casal entregou pessoalmente o convite como era de costume na época. Uma super festa e assim festivamente comecei a ser papeleira.
convite de casamento e anéis de lacre
convite de casamento e anéis de lacre



17 de abril de 2020

O Papel

de Flavia Venturoli Miranda
quarentena covid19/2020


Papel são fibras de origem vegetal (celulose) que são maceradas e refinadas, até tornar as fibrilas separadas; que após, são misturadas com água, ficando em suspensão, até serem coletadas em peneira, formando por sedimentação uma fina camada de fibras vegetais entrelaçadas entre si.

O papel surgiu na China a cerca de dois mil anos. Em 105 d.C., Ts’ai Lun, oficial da corte imperial chinesa em Lei-Yang, documentou o modo de produzir papel através de trapos de tecidos e assim passou a ser considerado o inventor do papel. Contudo pesquisas arqueológicas descobriram fragmentos de papéis com datação mais antiga, entre 140-87 AC, feitos de cânhamo e rami. Acredita-se portanto, que Ts’ai Lun inovou ao reaproveitar fibras têxteis e documentou a descoberta.

Papel sempre foi o suporte para as minhas artes. Desenho, aquarela, xilogravura, até mesmo origami. Por isso em 1992 fiz o curso de Papel Artesanal no Liceu de Artes e Ofícios com Stella Rodas. Foram 8 meses, 3 horas por semana. Fiquei um ano trabalhando como assistente no curso. Em 1995, dei as aulas de Papel Artesanal no Liceu de Artes e Ofícios.

Aconteceu que no meio do curso em 1992, minha irmã ia se casar e pediu para eu fazer seus convites de casamento. Foi minha primeira encomenda, papel de costela-de-adão com línter de algodão.

Em 1996, eu e meu marido Walter Miranda, abrimos nossa escola, Ateliê Oficina FWM de Artes, onde ensinei a fazer papel por uns 10 anos. Atendi a muitas encomendas de convite de casamento. Fiz um livreto: Manual do Papel Artesanal todo ilustrado e com capa de papel artesanal. Fiz também algumas matérias para revistas e tv.

Estou revendo essa época, e assim terei algumas fotos, imagens e vídeos mostrar

23 de fevereiro de 2017

Desabrigados

Um alvoroço, um burburinho, uns ginchos dolorosos.
Assim cai mais árvore numa cidade carente de verde e fotossintese.


7 de novembro de 2015

Saudades de chuva.

Saudades de chuva.
Cheiro de chuva.
Barulho de gotas no telhado
Estrondo de raio.
Brilho de trovão.
Catar pedra de gelo e chupar.
Banho de chuva no quintal da Rua Avaí.
Do carro derrapar das estradas de terra/lama do sítio.
Da brincar na lama do meio-fio de frente da casa da tia Vilma. (Daquela 1° casa de Taubaté que, segundo consta, tinha os tijolos assentados com óleo de baleia).
De ficar sem luz na Rua Cel J Brandão e brincar de cineminha por ver as luzes dos faróis refletindo no vidro da janela com grade pantográfica fazendo sombras dançantes na parede longa da sala enorme da casa nova quase sem móveis.
Saudades de ver as sombras no meu braço dos pingos da chuva da janela do fusquinha e se sentir cheia de pintas como meu pai.
Saudades de enfiar o pé na lama e de sentir a textura da lama passando entre os dedos dos pés.
Saudade de fazer guerra de barro com mamona (dupla função: sujar e machucar).
Saudade do cabelo molhado e escorrido da água da chuva.
Saudade da irmãzinha pedir minha mão no meio da noite de tempestade.
Saudade de tirar lama das valetas do tênis e de raspar o excesso no ferro ao pé da porta. E de raspar com graveto o excesso da lama no pé descalço.
Saudade da casa de pau-a-pique com telha de barro que fazia goteira na fazenda do amigo do meu tio.
Saudade de passar a chuva para ir caçar rã (ou gambozino).
Saudade de brincar na chuva com meu irmão e minha irmã.
Meu pai instigando a farra e minha mãe trazendo toalha.
Saudade de água da chuva... seria saudade de vida?
Tantos sofrimento, doença, cansaço, morte, quase-morte, semi-morte, falsa morte, pseudo-vida, medo do medo, acidente, dor, envelhecimento, impotência.
Acho que estou saudade de brincar com neto, com sobrinha e de ver sobrinhos.
Tudo passa e a chuva já passou.

1 de abril de 2014

Oc

I'd like to be under de sea
In the octopus garden...
Octopus
grafite sobre papel Halnemühle
20 x 30 cm